henri

depois que damos conta de que
tudo depende da nossa sopa
deveria tudo ficar mais fácil
é questão de mistura
uns vem com tudo dentro
uns, como eu, vem sem alguns ingredientes
ou, de maneira equivocada, algum não fora misturado no momento correto
é certo
talvez alguns venham com até algo a mais
mas depois que se dá conta de que a parte do universo que pulsa em nós
nem sempre consegue ouvir as suas ânsias e entender os seus sinais
nem sempre é coesão
quase sempre confusão
quando se é quebrado, se enxerga torto
atribui-se muito valor ao normal
mas e pode de algo normal brotar algo bom?
por certo esse mundo vivo deforma a matéria a sua maneira
gerando ruídos de angustia e confusão
requintando a estética
e parindo uns bichos esquisitão

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A rotina crônica
que toma conta do espaço
preso nesse tempo estranho
é tanta coisa
dúvidas e incertezas
It’s just a cigarette
música
substrato da rotina dos vivos
serve como o líquido
ajuda a deglutição
comendo nossa vida a cada dia
amarga como bom mate
triste como o abraço perdido
pouca coisa
o que era pra ser algo inspirador
passa a ser trivial e patético
cada vez mais perdido
no tempo
perdendo tempo

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Canjerana madeira boa, firme pra matar
Draft a mais de um ano parado
já não me lembro mais que ideias flutuavam por aqui
a cinco dias anda chovendo
o solo satura e as minhocas procuram salvar as suas vidas
minha casa furada é úmida mas acolhedora
é tudo o que tenho
é aqui que cresci, onde o meu mundo acontece
é aqui onde compreendo e faço as merdas
daqui busco melhorar
enterrar erros e construir acertos
aqui brotam as plantas que amo
aqui vivem as pessoas que tenho
daqui quero sair, pois aqui também é porto
e do porto devemos zarpar

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Nós vamos vencer o Coronavirus
diz o velho presidente
que falta o pelego faz até
nestes tempos de novela reprisada
e jornal a toda hora
a mídia vomita sopa cheia de Cordyceps
papamos todinha
os mercados ficam sem papel higiênico
vamos comer uma linda lasanha de ‘Neve’
o ar pesa
histeria é real
os nervos desabrocham
tempos de estoque de álcool gel
o governo desgoverna
e aqui na margem da expansão do meu universo
a pandemia se instala
é o início e já arrancamos os couros das mãos
é preciso lavar muito as mãos
lavar o pior de nosso país
temos pouco tempo
estamos na realidade errada
é possível construir uma nova
mas já faz um ano e ainda estamos aqui
nem todos estão ainda por aqui

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O ano passa e não muda nada
essa é a parada
não importa o jeito de passar
caro amigo
a verdade é que não importa a cor da roupa
ou a sua ausência
o passar é de fato o mesmo
delicado e detalhadamente
o mesmo
mesmo se o senso comum
que se embriaga no passar
que pita um bom fumo no passar
sabe de algo novo e infalível
uma receita caseira e milenar para o bom passar
mesmo assim não muda nada
fiquemos espertos
o tecido é vivo e
vive mesmo sob convenções humanas
é bonito, sujo, impregnado de suor mofado
de um molhado, seco, tétrico
faustoso para poucos
e é perecível no final

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Na transição da rotina
do fogo na retina
o futuro, o presente e o passado se beijam
em seus braços sem se tocar
delicados de moça trans
na linha invisível
atemporal
o velho agora lembra o novo
procurando palavras nos livros esquecidos
sobre a mesa de um dia qualquer de outono
poderia ser sobre amor
poderia ser um romance qualquer
são registros…

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henri

henri

Toda história compreende morte, seja ela preâmbulo, seja desfecho. Seja ela poesia.